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Até a esquina

Luis Fernando Verissimo

Aconteceu mesmo. Um dia ele disse que ia na esquina comprar cigarro e desapareceu. Não é força de expressão, sentido figurado ou piada. Ele disse exatamente isto. “Vou ali na esquina comprar um cigarro”... E ficou dez anos desaparecido.

Há algum tempo, reapareceu. Bateu na porta, a mulher foi abrir, e lá estava ele. Dez anos mais velho, mas ele. Quieto. Sem dizer uma palavra.

A mulher despejou sua revolta em cima dele. Seu isso! Seu aquilo! Então você diz que vai na esquina comprar cigarro e desaparece? Me abandona, abandona as crianças, fica dez anos sem dar notícia e ainda tem o desplante, a cara-de-pau, o acinte, a coragem de reaparecer deste jeito? Pois você vai me pagar. Fique sabendo que você vai ouvir poucas e boas. Essa eu não vou lhe perdoar nunca. Está ouvindo? Nunca. Entre, mas prepare-se para...

Nisso o homem deu um tapa na testa, disse:

- Ih, esqueci os fósforos.

E desapareceu de novo.


LEOPARDO SUICIDA

O pico do monte Kilimanjaro perdeu mais de 80% da sua cobertura de neve nos últimos 90 anos, e o cálculo é que a neve desaparecerá por completo nos próximos 20, como resultado do efeito estufa que aquece o planeta. O Kilimanjaro é aquela montanha na Tanzânia onde, segundo Hemingway contou num conto, um dia encontraram a carcaça congelada de um leopardo perto do cume, e nunca ficaram sabendo o que o leopardo fazia por lá. O leopardo de Hemingway já foi considerado símbolo de muitas coisas: espírito de aventura, a busca solitária do inalcançável, a imprevisibilidade do comportamento humano, a pretensão ou a simples inquietação que move bichos e artistas. Num mundo ameaçado de afogamento pelo degelo causado pela emissão industrial, do qual o pico do Kilimanjaro é apenas um dos termômetros assustadores, o leopardo de Hemingway pode simbolizar o instinto suicida que nos trouxe a este ponto.

Os Estados Unidos de Bush não aceitaram o tratado de Kyoto, onde foi combinada uma redução mundial nas emissões de dióxido de carbono e outros poluentes, porque isto prejudicaria a indústria dos Estados Unidos, que com 4% da população do planeta emite um quarto dos seus gases venenosos. E pronto. O mesmo Bush autorizou a abertura de áreas de preservação ecológica do país para mineração e prospecção de petróleo, como retribuição a interesses que ajudaram a elegê-lo, com o mesmo argumento imediatista. Apesar da sua firme opção pelo suicídio da espécie, Bush não é um vilão isolado. Escrevendo no London Review of Books sobre o fim próximo da civilização do hidrocarbono, Murray Sayle fez um paralelo entre Japão e Europa, onde já havia comunidades nacionais antes da Revolução Industrial, e o Novo Mundo, onde as identidades nacionais se formaram graças ao combustível fóssil, e não seriam países se não fosse pelo trem, o barco a vapor e depois o automóvel. Canadá e Austrália também estão na frente contra Kyoto e também querem caracterizar sua resistência como uma forma de oposição democrática e realista ao ambientalismo elitista. Um dia um extraterreno descobrirá a carcaça calcinada - ou congelada, já que depois do dilúvio virá outra era glacial - de um homem da idade do hidrocarbono, e a considerará tão inexplicável quanto a do leopardo de Hemingway.


QUENTE E FRIO

Me dizem que, de acordo com uma convenção internacional, a torneira de um lado é sempre a da água quente e a do outro, logicamente, a da água fria. Mas nunca me lembro quais são os lados. Não usam mais os velhos "Q" e "F", imagino, para não discriminar os analfabetos, nem as cores vermelho para quente e azul para fria, para não discriminar os daltônicos. Mas e nós, os patetas? Também precisamos tomar banho. E estamos condenados a sustos constantes ou à demorada experimentação até acertar a temperatura da água. Isso quando os controles não estão concentrados numa única supertorneira de múltiplas funções, na qual você pode escolher volume e temperatura numa combinação de movimentos sincronizados depois de completar um curso de aprendizagem do qual também sairá capacitado a pilotar um Boeing.

A verdade é que existe uma conspiração para afastar do mundo do consumo moderno as pessoas, digamos, neuronicamente prejudicadas. Na maioria dos casos as instruções para uso são dirigidas a pessoas normais, com um mínimo de acuidade e bom senso - quer dizer, são contra nós! Mas eu já me resignara a não saber programar o timer, ou sequer saber o que era um timer, do videocassete, ou a jamais usar a tecla "Num Lock" com medo de trancar todos os computadores num raio de um quilômetro, desde que me sentisse confortável no mundo que eu dominava. Como, por exemplo, no chuveiro. E então a modernidade chegou às torneiras, e "quente" e "frio" também se transformaram em desafios intelectuais. "Quente" é a da esquerda e "fria" é a da direita, é isso? Ou é o contrário? É uma conspiração.


Domingo, 14 de março de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.